quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Feita de pássaro

Na maior parte do tempo as pessoas são feitas de plástico, no tempo que não são, ninguém pode nota-las, talvez nem elas mesmas. Se você fica muito tempo olhando as pessoas, sente o cheiro do plástico e vê a textura brilhar. Todos os rostos que mostram são de plástico. E o restaurante novo, o filme que estão vendo, a companhia, a imagem exposta em todos os canais. Tudo por trás de vidro, e adivinha: de plástico.

Ainda ontem, às duas da tarde, eu observava um céu que nem sabia se chovia ou se fazia sol. Era fim de tarde, um menino chorando longe. Foi nesse cenário que vi um bando de pássaros voando assustados, imaginei que algum perigo os encontrou. Os pássaros voando, se distanciando, cada vez mais pra lá. Meus dedos que nunca alcançaria tamanha profundidade, era alto, e meus pés pregoavam o chão, e toda vez que eu olhava para as pessoas, eu queria ser feita de pássaros. E eu era. Quando eu não cheirava a plástico, nem me desfazia em sua textura, eu era pássaro. Quando ninguém mais olhava, e a tarde caía, e o menino chorava ao longe, e os pássaros voavam, eu era pássaro.
Eu fiquei imaginando que no fundo, depois de tudo o que era mostrado, talvez houvesse um pássaro morando quietinho no peito de todo mundo que é feito de plástico. 

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Saudade é um bicho danado de ruim

Desde que te vi, e te gostei, e te amei, saudade vem crescendo desembestada, e eu nunca sei se vou conseguir comportar suas exigências, parece mesmo que a qualquer momento ela vai pular do peito deixando um buraco do tamanho do mundo. Aí a gente suspira pelos cantos como um moribundo asmático, apoiando a cabeça nas mãos hora ou outra, com uma cara de paisagem ou de gente que sofre de úlcera crônica. 

Tem dias que acho que não vou conseguir manter o bom senso e compostura, fico com vontade de me espernear no chão do supermercado até tu aparecer e dizer que estou sendo ridícula, enquanto ri e me abraça com carinho. E tudo isso porque te quero a todo instante. Sinto como se tivesse uma febre que não passa, um vício que não cura, uma música que toca e nunca termina, mas nunca se repete. Nos dias em que há mais candura, sinto ainda como se eu fosse feita de vento que sopra leve, alma sossegada na varanda, dia manso, sol pintando o céu num fim de tarde, conversa boa em que o tempo não se conta. 

A verdade é que te quero e ponto, mesmo agora, mesmo sempre. E é engraçado esse querer outro alguém com tanta urgência e bem perto, dividindo o mesmo espaço, suor, juntando a pele, os poros, os mundos. E eu te quero. Como quis ontem quando acordei e você não tava do lado, a mão passeando solitária pela cama, e você dentro de quilômetros de saudade. 

Eu fico aqui lembrando de tudo, dos teus cílios longos, do barulho da risada, do jeito que você diz as coisas, da cor dos teus olhos quando acorda e a claridade tocando-os de leve, da tua barba passando em meu pescoço. Fico lembrando você, porque no fundo eu não esqueço. E te quero. Agora. Sempre.  

domingo, 14 de maio de 2017

O que você deseja, te deseja de volta?


Pensava que nossos sonhos eram todas as coisas que gostaríamos de ser; tudo o que ainda não éramos e queríamos, de algum modo, nos tornar. Depois de um tempo, percebi que não havia no mundo algo de tão nosso quanto os sonhos que sonhávamos; nada que pudesse ser tão eu quanto os desejos adormecidos em algum lugar dentro de mim mesma. Talvez isso explicasse um pouco sobre minha vontade de querer saber sobre os desejos das outras pessoas; sobre a matéria que dava vida aos seus sonhos. Dá pra saber muito sobre alguém sabendo sobre as coisas que ele deseja. E eu, particularmente, me interessava por tudo o que tinha alma no fundo, ou na beira, mas mergulhar sempre foi mais interessante. 

É uma sensação única poder tocar com gentileza o universo do outro, enquanto vê seu tecido de sonhos sibilar; é algo que aquece enquanto desperta o imaginário das coisas impossíveis aguardando na fila das possibilidades. Todo objeto interno esperava ser potencializado, desde os sentimentos mais nobres até os mais miseráveis. Cabia ao potencializador dosar as medidas. E isso nunca implicou dizer que a realidade seria arrastada em todas as coisas que, depois de muito tempo e muitas tentativas, acreditavam piamente que chegariam ao ápice da materialização, era triste assumir pra si mesma, principalmente quando o mundo ainda não tinha se mostrado em grande vigor, que haveriam sonhos que nunca sairiam da gaveta de idealizações. Porém, era uma ideia monótona acreditar que tudo fosse passível de realizações. Que ser humano enfadonho devia ser aquele que fosse capaz de possuir tudo o que quisesse ter. Haveria motivos pra alimentar uma existência sem direções? Alguém que possui tudo, teria motivos pra buscar algum movimento? E o brilho nos olhos, apelaria para que Deus? 

Saber que nem todas as coisas vingariam era uma espécie de tranquilidade madura para assumir; nem todas as plantas dariam frutos, nem todas as pessoas seriam gentis; e que nem todo mundo, mesmo com as melhores das intenções, seriam capazes de permanecer em sua vida. Nunca se tratou de acreditar no irreal, mas sim, de prever o que poderia alcançar o lado mais significativo de sua alma. E tudo é caminho onde nada se perde; tudo se aproveita. Fazer da caminhada mais leve depende muito do modo como se carrega a bagagem, de que as bagagens são feitas, e de quem escolheu caminhar, verdadeiramente, ao teu lado.